Legalização do Aborto, Controle Populacional e o Genocídio do Povo Preto

Esse é um assunto extremamente delicado e desde já quero deixar extremamente nítido que essa não é uma explanação sob princípios morais/éticos judaico-cristãos. É uma pequena análise dos desdobramentos recentes das políticas de morte contra o povo preto.

Primeiro: é ridículo a forma que o tema está sendo discutido, depois de um tempo de performances feministas patéticas, se tornou meme e teve um crescimento exponencial nas redes sociais de forma totalmente irresponsável.

Dividi em partes pra facilitar a compreensão porquê os fatos seguem uma linearidade densa e cheia de contextos históricos diversos que merecem comentários.

“ (…) a gente tá no mundo cão hoje em dia, não é isso? mas se a gente pudesse melhorar, a gente faria tudo para melhorar, nera não? Com certeza, porquê… Ó, Deus me deu 5 filhos, e eu hoje não quero parir. Graças a Deus eu sou operada, tenho 19 anos de operada, mas se eu pudesse parir, hoje, eu não queria parir. Mesmo eu pudendo, eu faria todo jeito pra evitar, sabe por quê? Porque hoje a gente tá no mundo cão. Eu não vou parir um filho pra botar num mundo desse.”

-D. Solange Sales em depoimento para o documentário Hip-Hop Pelo Certo (2020). Assista na íntegra clicando aqui.

Uma das relações-chave dessa problemática causada pela colonização e pelas neocolonizações é a noção de maternidade. Movimentos feministas muitas vezes se usam da bandeira de que a sociedade machista-patriarcal obriga as mulheres a serem mães afim de cumprir seu papel social. Porém essa não é uma problemática das mulheres que mais estão sujeitas a precisar fazer um aborto: mulheres negras e pobres. Essas mulheres não têm a maternidade estimulada e digna de prestígio. Mulheres negras são amaldiçoadas com úteros geradores de potenciais marginais. A maternidade preta não é aclamada e valorizada numa sociedade racista.

As ideologias que sustentam o Planejamento Familiar Brasileiro são extremamente genocidas e eugenistas, um dos principais veículos de políticas de miscigenação.

Em 1911, João Batista de Lacerda foi o representante do Brasil no Congresso Universal das Raças, em Londres, esse congresso reuniu pessoas do mundo todo para traçar o futuro das relações raciais pensando o progresso civilizacional. Durante o Congresso, Lacerda apresentou ao mundo um dos projetos mais ambiciosos da supremacia branca brasileira: um artigo que traçava o apagamento dos fenótipos negros e indígenas no Brasil num período de 100 anos.

No artigo apresentado Lacerda afirma que:

“A população mista do Brasil deverá ter pois, no intervalo de um século, um aspecto bem diferente do atual. As correntes de imigração europeia, aumentando a cada dia mais o elemento branco desta população, acabarão, depois de certo tempo, por sufocar os elementos nos quais poderiam persistir ainda alguns traços do negro.”

Esse projeto foi executado e adaptado para garantir seu sucesso, simultaneamente, em 1960, o Brasil intensificou suas práticas de controle populacional, sobretudo, definiu sua nova política de segurança pública com inúmeras tecnologias de guerra e estreitou os laços com a supremacia branca norte americana, nesse cenário, passou a formar a PM para o conflito direto e permanente com o “inimigo interno” (um eufemismo para jovens homens negros).

Nesse mesmo período, campanhas foram popularizadas através de ONG’s e movimentos feministas para a promoção do “direito à saúde, do direito ao acesso às informações e aos métodos contraceptivos”, possibilitando a criação Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM) e de outras entidades que levaram políticas eugenistas e esterilizaram em massa milhares de mulheres negras, sobretudo no norte e no nordeste do Brasil.

A falta de métodos contraceptivos e de informações sobre o uso de forma adequada foi ideal para que médicos e médicas submetessem mulheres negras (muitas vezes involuntariamente) à métodos definitivos, como a laqueadura tubária (método mais popular até hoje). Todas essas campanhas e organizações sociais e científicas foram apoiados, incentivados, municiados e financiados pela supremacia branca estadunidense, sobretudo, por movimentos feministas orientados pelas produções da Margareth Sanger.

Margareth Sanger
Margareth Sanger

“Eles são as ervas daninhas da humanidade, reprodutores irresponsáveis, geram seres humanos que jamais deveriam ter vindo ao mundo”.

— Margareth Sanger (No livro Pivot of Civilization)

“O controle de natalidade deve, em última instância, levar para uma raça mais limpa […] Nós precisamos limpar o caminho para um mundo melhor; Nós precisamos cultivar o nosso jardim”.. — Margareth Sanger

“Secretamente investir em áreas não-brancas, instalando clínicas de abortos em guetos de negros. Solicitar ajuda em dinheiro para criar clínicas de aborto, preferencialmente em áreas não-brancas”

— Margareth Sanger em “A Plan For Peace”, Birth Control Review, April 1932, p. 106

A Margareth Sanger é uma das maiores feministas da história, principalmente entre as feministas de 2° onda. Foi idealizadora e proprietária da primeira clínica de controle de natalidade do mundo, a Planned Parenthood, que hoje é a multinacional responsável por grande parte dos abortos nos EUA.

Margareth Sanger dedicou toda sua vida para o genocídio de pessoas pretas nos EUA e no mundo, foi convidada a participar de encontros com a KKK (Ku Klux Klan), foi utilizada como referência para nazistas alemães, foi base para apontamentos políticos-militares de dominação (nas mídias, nos veículos de comunicação e formação ideológica)... Além disso, Margareth produziu livros, artigos científicos, manuais e planos estratégicos para a criação de políticas de controle populacional, escreveu durante anos para jornais feministas e difundiu fortemente seus escritos eugenistas e genocidas.

Há uma trama e uma engenharia racista nas feministas de Margareth Sanger até hoje. Planned Parenthood financia direta e indiretamente muitas organizações como a Organização Nacional para as Mulheres (NOW), a Naral Pro-Choice e a conhecida Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF), além de páginas nas redes sociais, protestos e grupos que atuam nessa área de legalização do aborto, feminismos, planejamento familiar e assistência médica e psicológica para mulheres.

Em uma entrevista de no programa The Breakfast Club, o MC e ator Nick Cannon comentou sobre a candidatura da Hillary Clinton -fã declarada de Margareth Sanger e um dos símbolos feministas e progressistas da atualidade- que teve sua candidatura financiada pela Planned Parenthood.

Nick Cannon disse:

“Hillary foi… pensa em todas as coisas que fizeram com a Planned Parenthood. Esse tipo de coisas é invadir a nossa comunidade… é um verdadeiro genocídio e acontece isso há muitos anos. Este sistema não está construído para nós”

Nos EUA, as mortes dos negros pela Planned Parenthood somam 266 por dia, 30% dos 322.999 abortos, que geram mais de 200 milhões de dólares por ano para a rede de abortos.

Kanye West também já abordou o assunto em comícios e nas redes sociais, em um dos episódios ele fala:

“Existe uma tática de 4Ds, que são a de Distrair, Descreditar, Dispensar e Destruir. Estou bem. Tome um segundo e pense no que está sendo projetado aqui”

“As clínicas da Planned Parenthood foram colocados nas cidades por supremacistas brancos para fazer o trabalho do diabo”

Não é a primeira vez que o Kanye West é “cancelado” e linchado virtualmente por falar sobre o Aborto e como se deu sua relação com a paternidade. Todos seus pronunciamentos são abafados por críticas, principalmente por defensores negros/as da Planned Parenthood.

A própria Margareth Sanger escreveu um apontamento de como seria feita a contenção de falas contrárias através da contratação de um perfil específico:

“Devemos contratar três ou quatro ministros de cor, de preferência com histórico de serviço social, e com personalidades cativantes. A abordagem educacional mais bem-sucedida para o negro é através do apelo religioso. Nós não queremos que vaze o discurso que intentamos exterminar a população negra através do controle de natalidade.

— Margaret Sanger em Mulher, Moralidade e Controle de Natalidade (1922), pág. 12.

Observe a atuação de uma dessas lideranças negras da Planned Parenthood em reação às declarações do Kanye West:

“As mulheres negras são livres para tomar nossas próprias decisões sobre nossos corpos e gestações, e querem e merecem ter acesso aos melhores cuidados médicos disponíveis”.

-Nia Martin-Robinson — diretora de Liderança e Engajamentos Negros na sede nacional da Planned Parenthood

Movimentos feministas crescem no mundo todo, fundações internacionais como a IPPF, a Sociedade Aberta George Soros, a Fundação Ford, a Fundação Rockefeller, a Fundação Gates, a ONU, o Fundo de População das Nações Unidas, Organização Mundial de Saúde, e até mesmo movimentos de proteção ao meio ambiente (que alegam que o crescimento populacional deixará os recursos naturais ainda mais escassos), juntamente governos de todo o mundo financiam e sustentam políticas de controle de natalidade para países menos desenvolvidos e com alto crescimento populacional, como o Brasil.

Supremacistas brancos brasileiros também estão puxando campanhas pró-aborto, além das feministas brasileiras, o Bispo Edir Macedo (líder da Igreja Universal, a igreja evangélica brasileira com maior poder de mídia) já fez diversas declarações na sua coluna do Folha Universal e em eventos públicos se colocando favorável à legalização do aborto como forma de “diminuir o sofrimento dos pobres”. O ex-governador Sérgio Cabral que segue na mesma linha de campanha, apoiou a facilitação do aborto tendo como justificava que a favela é uma fábrica de marginais.

É medíocre e manipuladora a forma que a legalização do aborto vem sendo utilizada como um dos mecanismos de promoção de morte entre os nossos. Legalizar o aborto nesse contexto apresentado é abrir as comunidades negras ao crescimento exponencial da promoção de uma política de morte.

É evidente que o aborto é uma questão de saúde pública, que muitas mulheres negras abortam e que isso contribui pra uma parcela das mortes que enfrentamos nesse cenário de guerra, mas é inocente demais desconsiderar todos esses fatos históricos de alianças entre supremacistas brancos para o controle de natalidade nas comunidades negras. É inocente demais acreditar que a legalização do aborto representará “liberdade” para mulheres negras.

Não somos apenas corpos, somos comunidades, somos complementariedade. Tudo o que fazemos e pautamos geram consequências físicas, espirituais e sociais.

Todo acúmulo de trabalho dos feminismos e da Margareth Sanger estão apoiados no pilar de que as mulheres precisam ter controle sob seu corpo. O aborto é uma decisão individual? É direito tal qual foi a esterilização em massa de mulheres negras na década de 70/80?

Não existe direito de escolha em território inimigo.

Meu Corpo Minha Regras vem de uma concepção de “liberdade” despresível, insignificante e brankkko-colonizadora.

--

--

Poeta, co-fundadora e membro do Coletivo Us7monstrinhos, coordenadora da Biblioteca Comunitária D. Edite Rodrigues, produtora cultural, artista e pesquisadora.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store
Mariana Ferreira

Poeta, co-fundadora e membro do Coletivo Us7monstrinhos, coordenadora da Biblioteca Comunitária D. Edite Rodrigues, produtora cultural, artista e pesquisadora.