O Homem Negro Não é Machista

Pensando fora de análises simplistas, sem afogamento em “recortes” feitos na intenção de nos desviar da ideia/sentimento de povo, sem viver embebida pelas construção de feminismos, seja ele (negro, trans, liberal, comunista, cirandeiro, radical e/ou qualquer um que inventarem), afirmo forjada na prática que o Homem Negro não pode ser machista.

A estrutura política, social e econômica é construída e retroalimentada pelo racismo, sendo assim, da sutileza dos detalhes ao poder de movimentação de uma sociedade, o homem negro não é um agente movimentador, nem é privilegiado pelas movimentações realizadas pela supremacia brankkka. Partindo da ideia de que nenhuma mulher (branca ou negra) é machista (ela pode reproduzir machismo, mas não é privilegiada nessa relação de poder), nenhum Homem Negro é machista (ele pode reproduzir machismo, mas não é privilegiado nessa relação de poder).

Quais seriam os privilégios do indivíduo negro por ser homem? Ser a maioria esmagadora do sistema carcerário? Ser neutralizado/violentado e morto constantemente em abordagens policiais? Ser gerado/nascer em uma sociedade que o elege como inimigo n° 1 da manutenção da paz e bem estar social? Não ser passível de amor, cuidado, afeto e carinho? Ter relações afetivas-sexuais frágeis e centradas em seu desempenho sexual? Conviver com múltiplas violências e experiências de morte?

A categoria do gênero-sexualidade (assim como muitas outras) são opressões criadas dentro de um projeto político de dominação dos corpos -que antes de tudo é racista-, foram construídas por valores e cosmopercepções brankkkas, para manter as táticas de dominação e epistemicídio.

Não há uma comunidade preta forte, potente, em construção de libertação sem a energia criativa e força motriz da masculinidade. Não nos cabe a demonização da masculinidade negra em nome de um projeto de endeusamento da energia negra-feminina, na qual se emprega uma ruptura com nossos homens, e/ou uma masculinidade culpada. A energia feminina e a energia masculina em dinâmica de complementaridade são a sustentação do espírito e existência do nosso povo.

Na cosmovisão AfroPindorâmica a sexualidade é parte do nosso sistema espiritual. O mundo não é dividido em um plano cartesiano, todas as coisas, pessoas e energias se interseccionam. Enquanto sujeito social, cada um é o que faz de útil para a comunidade, ser homem ou mulher não é um marcador ou fronteira de prestígio social. Machismo, feminismos e afins não dialogam com o que nós somos. O machismo é uma problemática gerada pela civilização brankkko-colonizadora, enquanto feminismos é a reação a esse problema que só foi introduzido em nós afrikanos (do continente e em diáspora) depois do contato com os colonizadores.

cartaz do filme Moonlight-Sob a Luz do Luar
Cartaz do filme Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016)

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Poeta, co-fundadora e membro do Coletivo Us7monstrinhos, coordenadora da Biblioteca Comunitária D. Edite Rodrigues, produtora cultural, artista e pesquisadora.

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Mariana Ferreira

Poeta, co-fundadora e membro do Coletivo Us7monstrinhos, coordenadora da Biblioteca Comunitária D. Edite Rodrigues, produtora cultural, artista e pesquisadora.